Numerologia evangélica: quando 2 + 2 = superstição

27/07/2009

Salve salve… Segue um texto sobre religião (claro), que fala um pouco sobre coisas como as que vimos a alguns post atraz

Numerologia evangélica: quando 2 + 2 = superstição

.

https://i1.wp.com/www.almamistica.com.br/figuras/numerologia.jpg
“E até importa que haja entre vós heresias, para que os que são sinceros se manifestem entre vós.” – 1 Co 11.19

“Até que todos cheguemos à unidade da fé, e ao conhecimento do Filho de Deus, a homem perfeito, à medida da estatura completa de Cristo, para que não sejamos mais meninos inconstantes, levados em roda por todo o vento de doutrina, pelo engano dos homens que com astúcia enganam fraudulosamente.” – Ef 4.13-14

Nessa manhã eu estava ouvindo a Rádio Musical FM (de teimosa!), e o missionário Ezequiel Pires estava propagandeando a “Vígilia das 7 horas”, com 7 pastores, 7 não-sei-o-quê, e que será poderosa, com dons espirituais, pentecostes, curas, profecias, etc. Pela propaganda só faltou dizer que o próprio Deus estaria dando autógrafos nas Bíblias dos irmãos. Mas o que me chamou a atenção nessa vigília em especial foi a importância dada ao número 7, como se esse número a tornasse melhor do que as outras.

Procurei na internet sobre a tal vigília milagrosa, mas não a encontrei. Acabei achando uma semelhante, do mesmo pregador, a “vigília das 12 horas” (acho que foi muito longa, aí resolveram fazer uma menor, com 5 horas a menos). Também é interessante frisar que as vigílias que eles fazem são “as maiores da Terra”, segundo eles, é claro:

http://estrangeira.files.wordpress.com/2009/07/vigilia12horas.jpg?w=274&h=400

Nessa vigília anterior, o poder estava no número 12: 12 horas, 12 pastores, 12 cantores, 12 orações e 12 meses de bênçãos. Fico pensando se algum incauto fez 13 ou 11 orações (de repente chegou atrasado, e não esteve nas 12 horas), será que a bênção para ele foi reduzida?

O mundinho gospel adora falar mal das religiões que julga místicas, mas adora uma superstição. É banho de sal, rosa ungida, sabonete abençoado, água fluidificada que não acaba mais. Porém, uma das superstições mais corriqueiras é o uso de números, entre os quais imperam o 7, o 12, o 40 e o 70, mas também se usa 318 e outros mais.

Por que o fascínio dos pastores por certos números? Muitos gostam de pinçar passagens da Bíblia e trazê-las literalmente para o contexto atual, esquecendo-se que certas mensagens são para certas pessoas em certos períodos da história. Como Jesus teve 12 discípulos, inventou-se uma “visão de Deus” chamada G12 que O imita, muito toscamente por sinal. Como Deus fez o mundo em 7 dias, e como o 7 é o numero inteiro depois da dízima periódica 6,66…, conclui-se que seja o número divino, e por isso com um poder especial. O 40 remete aos quarenta anos do povo hebreu e de Cristo no deserto; o 70, aos enviados por Cristo. E por aí vai, para fazer uma campanha ou um método de crescimento de sucesso basta escolher algum número bíblico e, em cima dele, forjar uma doutrina de mistério e poder sobrenatural.

Outro que está fazendo uma campanha numerológica gospel é o Pr. Marco Feliciano. Ele teve uma revelação do “Alto”, onde cada fiel que quisesse uma bênção deveria depositar em sua conta R$ 7,00, e orar por 7 dias faltando 7 minutos para a meia-noite. Como seu site parece uma “25 de Março” virtual, tamanha é a quantidade de anúncios de venda de produtos, fica difícil achar o site da campanha.

Quando se dá uma ênfase desnecessária a um método, transpõe-se para ele o poder para se chegar ao objetivo desejado. Dizer que tem-se que ir nas 40 semanas da campanha “Deus faz milagres” denota que, caso o fiel a siga à risca, terá sua bênção. Não passa de uma superstição grosseira, como o de andar com um pé-de-coelho com o intuito de chamar a sorte, ou de mandar rezar uma novena na igreja católica (ah, novena não pode, pois nove é número de satanistas, pois 6+6+6=18, e 1+8=9! Se bem que já vi campanha de novena em igreja evangélica também). Além da superstição, há a clara alusão à uma barganha com Deus: eu fiz as 7 orações, então o Senhor tem que cumprir sua parte no acordo (como se Deus tivesse se comprometido com o fiel, quando quem faz isso é o pastor ou líder, quando diz que a campanha é poderosa e praticamente infalível). Se o “acordo” é cumprido, dá-lhe testemunho! Se não é, o que ocorre em mais da metade dos que fazem a campanha (segundo estatísticas minhas), não tem problema: semana que vem tem uma nova, a dos 19 dias na presença de Deus, afinal 19 é 7+12, o que dá ainda mais força e poder.

Quando as igrejas pentecostais, como a Quandrangular, começaram a fazer campanhas décadas atrás, o intuito era simplesmente o de manter os fiéis “interessados”, frequentes no culto, e também como meio de evangelização. Hoje a coisa degringolou de vez, tornando-se, além de uma panacéia para a mesmice da igreja, algo “quase palpável”, onde os os fiéis podem se segurar, uma vez que o Deus que é pregado está muito distante, embora diga-se nos cultos que Ele sempre está ali. Se não posso ver a Deus, sei que Ele me obedecerá, ou melhor, me abençoará, pois estou cumprindo com minha parte no ritual. É isso, a numerologia gospel é mais um ritual pagão em meio à igreja de Cristo.

Mas a mistura do cristianismo com o paganismo (ou gnosticismo) é muito antiga. O povo hebreu foi cativo no Egito e na Babilônia, incorporando o misticismo dessas culturas em seu culto doméstico, e isso foi motivo de grandes exortações de Deus através dos profetas. Nos tempos de Jesus, os judeus ainda estavam envoltos numa atmosfera gnóstica, viviam sobre o poderio romano, e Paulo, em suas cartas, não se cansou de admoestar seus irmãos sobre a entrada de doutrinas estranhas no ensino do Evangelho. Se, naquela época, com relativamente poucos líderes cristãos isso acontecia, o que dizer agora! Não estamos no Egito ou na Babilônia, mas o Brasil é rico em sincretismo religioso, sendo facilmente aceito que um cristão frequente de vez em quando o centro espírita e passe o Ano-Novo pulando 7 ondas (de novo esse número?) na praia.

Já passou da hora de, como Igreja, deixarmos de ser tão infantis espiritualmente, buscando as bênçãos e não ao Abençoador. Ir uma, duas, três, cem, mil vezes no culto não nos fará mais ou menos merecedores de nada, mas mesmo assim Deus, em Sua infinita bondade, nos supre no que necessitamos, e muitas vezes nos eleva a lugares nem sonhados. Busquemos o Reino de Deus e a Sua justiça, e tudo o mais se acrescentará, e isso pode ser feito a todo o momento, não apenas faltando 7 minutos para a meia-noite ou durante 12 horas de vigília e oração.

Publicado em Ser estrangeira

Vi no http://bereianos.blogspot.com/ que viu no http://estrangeira.wordpress.com